domingo, 7 de novembro de 2010

Descoberta



Sob a sua árvore favorita do parque, Isabella passava muitas de suas tardes. Normalmente ia até o local para se distrair e relaxar, especialmente depois de alguma das comuns brigas que aconteciam entre ela e sua avó. Mas aquele não era um dia como qualquer outro.
A família Porto era originária do Brasil, mas se mudaram para os EUA pouco tempo depois de Isa nascer. Nessa época, seu pai e seu avô, donos de uma gravadora, a 2plus2 Music, fecharam acordo com a famosa King song, e, por isso, mudaram-se para aquele país.
Durante toda a infância e adolescência, a menina aprendia as coisas em dobro: eram dois idiomas, duas culturas, dois tipos de música, duas tradições. Duas educações. Ao contrário do que aconteceria no Brasil, caso tivesse crescido em sua terra Natal, lá ela frequentava as aulas normais na escola, em Inglês, e, a tarde, tinha aulas particulares de Língua Portuguesa, Literatura, História e Geografia Brasileira. Sua família sempre quis preservar as raizes, principalmente porque a intenção de seu pai era retornar ao seu país de origem.E foi nesse momento que tudo começou a desmoronar no mundo de Isa.
O pai só contou à família que esta, formada por ele, a mulher, Geovana, e o irmão mais novo de Isa, Mike, voltaria ao Brasil quando tudo já estava acertado. Todos ficaram felizes, menos a menina. Ela vivera toda a sua vida naquele lugar; todos os seus amigos, seu lugares favoritos, sua escola querida, suas atividades, tudo estava ali. Como poderia largar tudo? Seria o fim!
Foram dias de choro e desespero até que alguém sugeriu que ela morasse com os avós. "Claro,como não pensei nisso antes??Será maravilhoso!".
Depois de um pouco de relutancia da mãe, algum drama do irmão e um "não sei não...isso não vai dar certo" do pai, ficou certo que tentariam, por um ano. Se não desse certo, Isa iria com eles para o Brasil.
A primeira semana foi maravilhosa!Isa ainda estava de férias e passou praticamente todo esse tempo fazendo o que mais gostava: passear com seus avós. Mas as aulas começaram. E a relação começou a ficar conturbada. Primeiro foram os horários de estudos. A avó, D. Marta, vivia dizendo "Minha neta, como pode ficar a madrugada toda estudando e passar a manhã dormindo?? Como podes perder esse belo sol?", ao que a menina simplesmente sorria e virava a cara para não brigar com a avó.
Depois,vieram as festinhas em casa e na casa das amigas, algo normal para a menina. A avó não aguentava o barulho do grupo em casa e também não queria Isa dormindo - ou ficando até tarde - na casa de outras meninas. Mas a gota d'agua foi no Halloween.
Acostumada com fantasias elaboradas e com as quais, junto com as amigas, podia assustar todos da vizinhança sem descobrirem quem ela era, Isa comprou metros de tecido preto e roxo e costurou durante toda a semana. Ela adorava criar suas próprias roupas! E detestava que alguém as visse antes que ficassem prontas. Sendo assim, só mostraria aos avós no dia 31. E o que aconteceu? Quase matou a sua avó de susto! D. Marta ficou branca, pálida e,claro,muito brava depois de reconhecer a neta por baixo de todos aqueles panos. "Bem, você tem que reconhecer que a nossa neta fez um excelente trabalho! Parabéns, Isa! Você tem futuro, menina!", disse seu avô, tentando acalmar a mulher e animá-la. Durante uma semana a avó comentou o assunto, reclamou e chegou a falar que as amigas eram má influêcia para ela. Coisas típicas de avó. Mas para uma adolescento com os hormonios a flor da pele como Isa, isso era mais do que motivo para fechar a cara. No quinto dia, ligou para os pais e avisou que, o mais rápido possível, mudaria-se para o Brasil com eles.Não aguentava mais aqueles velhos!
Voltou. Passaram-se três anos desde então. Em todas as vezes que encontrava os avós, Isa pouco conversava com D.Marta que, claro, sentia muita falta de sua netinha. Hoje, sentada sob a árvore, Isa chora. Busca consolo e distração. Mas não consegue tirar do pensamento o quanto poderia ter aproveitado mais a sua avó. O quanto poderia ter brincado, conversado, contado e ouvido histórias. Quanto ficara perdido no tempo! Hoje, as lágrimas não são de aborrecimento; são de tristeza. Acabara de sair do enterro da avó e sente como se, agora sim, seu mundo começasse a desabar. Mas esse desmoronamento não acabará. A frase de uma de suas músicas favoritas ecoa em sua mente, traduzindo o que sente: "Foi quando eu percebi, sem querer, que os ponteiros da vida não voltam pra ninguém"