Pular para o conteúdo principal

Eu? Ou eu?

Todos dizem que sou louco. Mas eu não acho. Ah, mas eu acho!
Eu nunca fui de acreditar nas pessoas. Elas mentem a todo momento. E falam verdades também. Sabe por que dizem que sou louco? Porque não entendem o que eu digo. Ora, se não entendem, os loucos são eles. Ou eu.
Minha mãe nunca acreditou nessa história de loucura. Ou acreditou? Para ela, o meu problema era outro: dupla personalidade. Mas isso seria possível? Eu nunca acreditei. Pois eu acredito!
Disseram-me que, independentemente de qual fosse o meu problema, eu deveria procurar um médico. Psiquiatra. Eu sou louco? Eu sou! Para que ninguém continuasse falando, fui.
Acreditem: chegando lá, eu até gostei do lugar. Eu não! Tinha até uma cama! Não era cama, era um divã, seu burro!
O doutor chegou. Chamava-se Lucivaldo. Que nome estranho. Eu gostei! Conversa vai, conversa vem. A pergunta derradeira: Você acha que está louco? Sim, doutor, eu estou louco. Mas quem é esse que diz eu estou louco? Sou eu? Ou eu? Ou o senhor? Ele fez uma cara de confuso, chamou uma moça de branco – uma enfermeira, ignorante! – assinou um papel e acompanhou-me até esse quarto. Aqui, ninguém me chama de louco. Por que nunca me apresentaram esse lugar maravilhoso? Porque aqui é um hospício. Ninguém te chama de louco, porque todos o são também. É, depois eu que sou louco.


Texto baseado no microconto “Quem”, de Sérgio Sant’Anna

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O segundo semestre de 2016 foi, provavelmente, o tempo mais desafiador da minha vida. Foi o início do meu processo de mudança, e também a época das minhas crises mais fortes. Em poucos meses, perdi as contas de quantas vezes acordei em meio a um ataque de pânico. Mas foi também o momento em que resolvi que aquilo não era normal e que estava cansada de viver presa a tudo aquilo; era hora de mudar, nisso também. A partir de então, fui buscando saídas, técnicas, possibilidades de mudança, de melhora. A vida foi me ajudando e me apontando caminhos; hoje, muitos deles são os que me salvam nos momentos de sofrimento. O que faço? 1. Terapia - não foi a primeira técnica que tentei, mas é o topo da lista porque hoje sei que não posso viver sem. É meu maior investimento em mim mesma e na minha saúde. Desde a adolescência falava de ir para a terapia, mas cresci em uma família que acredita(va) que doenças psicológicas eram bobagem ou frescura; além disso, sempre tive dificuldade em falar dos m...

Amar um amigo é amá-lo como a si mesmo

Eu sigo a Canção Nova pelo twitter,mas confesso que são raras as vezes que visito o blog deles. Mas este post me chamou a atenção pelo nome, o mesmo que intitula esse post. No primeiro momento, eu gostei pelo fato dele ser muito bonito, bem escrito e ter feito uma relação que, por mais que, como católica, eu possivelmente tenha feito inconscientemente, conscientemente eu nunca havia parado para pensar. Já quando o li pela segunda vez, depois de alguns acontecimentos ao longo do dia, meu olhar se voltou para detalhes profundos, os quais me fizeram refletir. Alguns desses trechos eu colocarei a seguir, mas recomendo a leitura do mesmo por inteiro. " Quando eu amo alguém como a mim mesmo, entendo que ele é outra pessoa e não fico tentando modelá-lo conforme a minha vontade. Percebo que ele soma na minha vida justamente porque é diferente, sendo assim, fazê-lo parecido comigo é perder tudo o que as diferenças acrescentariam na vida um do outro." Eu amo meus amigos pelo que eles s...
You going to ask me about God and the Devil? Yes. You're going to ask me how God can place such a burden on good people? No. I'm going to ask you how you still belive in a kind God after a case like this. Was my faith shaken? Yeah. Mhmm.It is. It is? Yeah.I'll go home tonight and I'll lie in bed and I'll toss and I'll turn and I'll beat myself up. And, uh, I'll question everything. Will you get your faith back? Always have in the past. So you have faith that you will retain your faith? Why? Because, Bones, the sun will come up and tomorrow's a new day. I know that feeling. Really? Mm-hmm. You know what it feels like to get your faith back? When I see effects and I'm unable to discern the cause, my faith in reason and consequences is shaken. Then what happens? Two plus two equals four. I put sugar in my coffee and it tastes sweet. The sun comes up because the world turns. These things are be...